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Acidentes com caminhões são os mais letais para os ciclistas curitibanos

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(Foto: Juliano Cunha – Banda B/Reprodução)

(Foto: Juliano Cunha – Banda B/Reprodução)

Embora represente apenas 1,5% do total dos acidentes envolvendo bicicletas, os caminhões são proporcionalmente os veículos mais letais para ciclistas no trânsito de Curitiba. Dos 12 acidentes desta natureza registrados em vias urbanas no ano passado, dois resultaram na morte do ciclista no local do acidente – um índice de letalidade de 16,6%, o mais alto dentre todos os tipos de ocorrências.

Os dados têm como base o Atlas da Acidentalidade com Bicicletas no Trânsito Urbano de Curitiba em 2014, um levantamento inédito feito pelo blog que analisou os 782 acidentes envolvendo ciclistas que foram atendidos pelo Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma em Emergência (Siate), do Corpo de Bombeiros do Paraná, entre os dias 1.º de janeiro e 31 de dezembro de 2014.

A ciclista Letícia Rodante, de 36 anos, foi uma das vítimas deste tipo de acidente. Ela ia pedalando para almoçar na casa do noivo, mas não chegou ao destino: foi atropelada em um cruzamento por um caminhão da prefeitura enquanto trafegava em uma ciclovia no cruzamento da rua Prefeito Lothário Meissner com a rua São Gabriel, no Cajuru. Arrastada por cerca de cinco metros, Letícia morreu no local.

O motorista do caminhão, Claudio Camargo, já havia se envolvido em um acidente fatal, que vitimou uma criança de 8 anos, também chamada Letícia, em abril de 2012. Na época do acidente, a prefeitura informou que o motorista passaria por perícia médica e seria afastado de suas atividades.

Mas, exatamente um ano depois da tragédia, o motorista segue trabalhando na Secretaria Municipal de Obras Públicas (Smop) de acordo com as informações do Portal da Transparência da prefeitura de Curitiba. Ele é funcionário em regime estatutário do município e recebe um salário de R$ 2.884,10 – dos quais R$ 476,87 são referentes a “Gratificações de produtividade, gratificações do cargo, gratificações de vida, além de outros desta natureza”. Ele leva duas mortes anotadas no prontuário e ainda não foi julgado pela Justiça por nenhuma delas.

Sobre o episódio, a prefeitura informa que a equipe da Segurança do Trabalho da Secretaria Municipal de Recursos Humanos esteve no local do acidente, fez relatório técnico, investigação e foi aberto processo administrativo encaminhado ao Núcleo Jurídico da Secretaria Municipal de Obras (Smop), que atualmente está em trâmite na  Procuradoria Geral do Município.

“O servidor foi afastado de suas funções pelo período de 90 dias, recebeu atendimento do Médico do Trabalho e da Psicologia logo após a ocorrência. Para retornar a atividade, ao término do período de restrição, passou novamente por avaliação psicológica e do Médico do Trabalho”, diz a assessoria de imprensa da prefeitura de Curitiba. Questionada, a prefeitura não deu qualquer tipo de informação sobre o resultado dos laudos de avaliação do motorista.

Índice de gravidade

Curitiba registrou 782 acidentes de trânsito envolvendo ciclistas ao longo de 2014, uma média de 15 acidentes por semana. Os dados fazem parte do Atlas da Acidentalidade com Bicicletas no Trânsito Urbano de Curitiba em 2014, publicada na série especial Bike em Trânsito do blog Ir e Vir de Bike.

Com 59 casos registrados (7,5% do total), os acidentes entre motocicletas e bicicletas também resultaram em duas fatalidades no ano passado. Um único caso, ocorrido no bairro Bacacheri no dia 23 de novembro, provocou a morte do ciclista e o do motociclista e deixou uma passageira da moto com ferimentos graves. O acidente contribuiu para elevar o índice de letalidade para 3,3% nesta categoria.

Em números absolutos, o acidente mais comum ocorreu entre carros e bicicletas. Foram 343 colisões deste tipo ao longo do ano, o que representa 44,2% de todos os acidentes envolvendo ciclistas nas ruas da capital paranaense.

Em apenas um destes casos houve registro de morte no local do acidente. A vítima foi o ciclista Jorge Ribeiro de Lara, de 63 anos, que morreu atingido por um Renault Clio na Avenida Victor Ferreira do Amaral, no mês de abril, quando seguia para o trabalho. O índice de letalidade neste tipo de acidente é de 0,3%. Em 13 ocasiões, os ciclistas foram hospitalizados com ferimentos gravíssimos (quando há risco de vida). Isso ocorre em 3,75% dos acidentes entre carros e bicicletas.

Uma morte registrada teve como causa a queda da bicicleta sem o envolvimento direto de qualquer outro tipo de veículo. O fato ocorreu no bairro Sítio Cercado e teve como vítima o vigilante Clemente Mende de Oliveira, de 71 anos.

A queda é o segundo tipo de acidente mais comum na cidade com 232 casos — o que corresponde a 41,3% do total. A categoria, porém, pode incluir acidentes provocados por condutor de veículo motorizado sem que tenha havido colisão ou contato com a bicicleta. O índice de letalidade deste tipo de ocorrência é de 0,4%.

Já os ônibus representam 4,2% das ocorrências com bicicletas, com 33 acidentes. Em 2014, não houve registro de morte de ciclistas neste tipo de situação. Porém, em cinco ocasiões, os ciclistas foram hospitalizados em estado gravíssimo, o que torna este tipo de acidente o mais grave quando não há óbito no local do acidente. O índice de vítimas em estado grave é de 15%, o mais alto dentre todas as categorias.

Comparação

“Onde quer que haja compartilhamento de vias, vai haver acidentes. As questões são justamente a proporção, a letalidade e as respostas institucionais dadas à questão”, avalia o pesquisador na área de ciências sociais Sebastião Nascimento, que vive na cidade de Bremen, na Alemanha. Em Curitiba, foram 782 acidentes com ciclistas em 2014, com 19 incidentes que resultaram em ferimentos graves e 6 mortes de ciclistas ocorridas no local do acidente. Isso revela uma letalidade de 0,77%. Em Bremen, na Alemanha, houve 1.337 acidentes envolvendo bicicletas em 2013 e apenas 2 mortes — ambas fora do perímetro urbano –, ou seja, uma letalidade de 0,15%.

“Em uma comparação direta entre os dados, em Curitiba, a cada 3 acidentes com ferimentos graves, um resulta na morte do ciclista. Na Alemanha morre um ciclista a cada 37 acidentes com ferimentos graves. A diferença é de mais de 1200%”, aponta o pesquisador. Ele ressalta que a comparação é feita entre uma cidade em que o número de viagens de bicicleta é praticamente irrisório, como Curitiba, em uma cidade em que 72% da população possui e utiliza a bicicleta com frequência. “Ou seja, mesmo com uma massa insignificante de ciclistas em comparação com um uso praticamente universalizado da bicicleta, resulta que, em Curitiba, morre num mês o que leva proporcionalmente um ano pra morrer na Alemanha”, assinala.

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