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Crônica de uma pedalada na ciclovia da Avenida Paulista

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Faltou Avenida Paulista para tanto ciclista

Faltou Avenida Paulista para tanto ciclista

“Como assim, você vai sair de Curitiba e viajar 420 quilômetros só para pedalar por algumas horas em uma ciclovia no centro de São Paulo?”. Para mim, a pergunta fazia tanto sentido quanto alguém questionar Neil Armstrong se ele viajaria 384 mil quilômetros apenas para fincar uma bandeira no solo lunar. Mas, mesmo assim, isso não me impediu de responder mais de uma vez e com toda a paciência tal indagação ao longo da última semana:

– Sim, é isso mesmo! Mas também é muito mais do que isso…

Confesso: se alguém me dissesse que isso seria possível há três anos, certamente seria tomado por lunático! Mas aconteceu: no domingo, dia 28 de junho de 2015, foi inaugurada a ciclovia da Avenida Paulista. Sim: UMA CICLOVIA. NA AVENIDA PAULISTA!

Na inauguração, houve quem, mesmo não estando lá, tenha visto apenas um “grupelho de ciclofascistas”. Houve quem tenha enxergando na cor vermelha da via a propaganda de um partido político demoníaco. Houve também quem, atropelando as boas práticas do jornalismo, tenha dado mais eco a uma vaia solitária do que às vozes de milhares de cidadãos satisfeitos com uma política pública ousada. Mas, tudo bem! Cada um é livre para ver ou dizer o que viu como que bem entender. Pois então, é minha vez de relatar o que vi neste dia:

Vi a cidade mais importante do país mudar os rumos do seu destino e inaugurar uma nova fase de sua história ao deixar para traz um passado cinzento, norteado por minhocões, viadutos estaiados e vias expressas entupidas de carros;

Vi a avenida mais importante da capital paulista aberta às pessoas; crianças, jovens, adultos e idosos ocupando o espaço público. Pessoas comuns vivendo a cidade e brincando ao ar livre, pedalando e sorrindo em paz e harmonia;

Presenciei a cultura pegar carona nas duas rodas e tomar conta da avenida, se expressando ao som de bandas de música, na arte urbana e em performances. Como cantou o artista curitibano Plá, “É a invasão das bicicletas…”. Tem que ter moral!!!;

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Observei as lágrimas de alegria e o sorriso incontido de amigos e colegas que ajudaram a tornar tudo isso realidade. Mais do que isso, testemunhei o sonho de um pequeno exército de ciclistas quixotescos, que há mais de uma década começou uma luta contra moinhos motorizados, se tornando realidade;

Percebi que um objetivo estratégico foi alcançado, mas ainda há muito a ser feito. E quem disse isso foram os ciclistas da periferia protestando e pedindo o que é mais do que justo: que os avanços sejam democratizados e cheguem de forma acelerada e urgente aos extremos da Zona Norte, Zona Sul, Zona Leste e Zona Oeste;

Observei com profundo respeito as Ghost Bikes e senti viva a memória de Márcia Prado e de Julie Dias, ciclistas e cicloativistas que perderam a vida por terem tido a ousadia de pedalar na Avenida Paulista, antes território sagrado de carros e ônibus velozes e furiosos.

Ao ver faltar Avenida Paulista para tanto ciclista, também vi evaporando no ar, como fumaça de escapamento, todos os argumentos raivosos e contrários à implantação desta ciclovia. Falta de demanda? Conta outra, vai!

Ali, pedalando minha bicicleta no canteiro central da avenida mais importante do país, no coração da cidade de São Paulo, tive a certeza de estar vendo a História acontecer diante dos meus próprios olhos. E desejei profundamente que a coragem e pioneirismo do povo paulistano se torne um símbolo e inspire outras cidades a seguirem pedalando a caminho da democratização das ruas e do espaço público.

Leia mais: Jilmar Tatto dá a receita para fazer ciclovias como a da Avenida Paulista.

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