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“Ghost Bike” é retirada do caminho do príncipe japonês em visita a Curitiba

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20151031093257Poucos quilômetros após desembarcar em uma terra completamente desconhecida para uma visita diplomática, o príncipe Akishino olha com curiosidade pela janela da limousine blindada para aquela cidade que, segundo lhe disseram, é premiada como a melhor cidade daquele curioso e distante país. De repente, o futuro imperador aponta com seu dedo para o alto e pergunta algo em sua língua natal.

O tradutor oficial da comitiva, de modo fluído, repassa a questão na língua da autoridade local, que acompanha a comitiva para dar as boas vindas oficiais.

– Senhor prefeito, Sua Majestade Imperial gostaria de saber o que significa aquela bicicleta branca pendurada em um poste…

De imediato, o líder local fica pálido. Olha para seu assessor em busca de uma resposta, sem sucesso. Tenta iniciar uma frase, mas tropeça nas palavras, e balbucia coisas sem nexo, como se estivesse tentando explicar álgebra em uma língua completamente desconhecida. Olha para baixo, respira fundo, e tenta mais uma vez:

– Veja bem, Sua Santidade, digo, Vossa Principesa Imperial. Nesta cidade, sob minha administração, a bicicleta é sim uma prioridade muito importante. Tanto que estamos construindo uma cidade mais humana, fazendo muito pelos ciclistas com a construção de vias calmas e do Centro Acalmado. Eu, inclusive, fui de bicicleta tomar posse quando fui eleito prefeito desta linda cidade, que hoje o recebe de braços abertos para celebrar 120 anos de amizade entre nossos povos! Veja você, digo, veja Vossa Majestade, que aqui temos uma praça em homenagem ao seu povo, onde todos os anos…

O tradutor, meio constrangido, interrompe o palavrório e diz, na língua do prefeito, de forma diplomática mas um tanto quanto dura:

12111944_1189832517698098_3335366383975573087_n-Sua Excelência, nosso povo cultua a objetividade e a honestidade. O futuro Imperador gostaria simplesmente de saber o que de fato significa aquela bicicleta branca pendurada no poste. Eu sei a resposta e posso dá-la na minha própria língua sem que o senhor sequer perceba. Eu notei no asfalto um detalhe que passou despercebido ao Príncipe Imperial. Por uma questão de honra, outro atributo caro ao meu povo, eu  seria incapaz de mentir a ele ou a qualquer um. Por uma questão de ética profissional, dei ao senhor a chance de explicar a questão com suas próprias palavras. Gostaria de tentar novamente?

O prefeito engole seco e, meio desconcertado, perde a empolgação inicial e diz, em voz baixa, quase inaudível, desviando o olhar do seu interlocutor:

– Vossa Majestade Imperial, infelizmente, aquela bicicleta branca significa que ali, aquele local, morreu uma ciclista. Ela era uma jovem, nascida em vosso país e que vivia desde pequena aqui na nossa cidade. Ela morreu atropelada pela manhã, quando ai pedalando de bicicleta para o trabalho…

O tradutor repassa a informação ao príncipe, que apenas balança a cabeça de forma negativa e não volta a dizer palavra sequer até o final do trajeto pela grande avenida. Com o olhar perdido, ele sequer percebe a avenida toda enfeitada com bandeirolas coloridas nas cores do seu país, colocadas ali especialmente para celebrar a visita oficial.

Percebendo o mal-estar gerado, o tradutor cochicha ao pé do ouvido do líder local:

– Sugiro que, na primeira oportunidade, o senhor curve-se diante do Príncipe Imperador e lhe diga as palavras Moushiwake Arimasen, sem olhar diretamente para os seus olhos.


 

00172326A situação acima descrita é apenas uma fábula. Mas poderia muito bem ter acontecido. Para evitar que ela de fato ocorresse, a bicicleta branca foi tirada do poste um dia antes da passagem da família imperial japonesa pelo local — mesma ocasião em que bandeirolas em alusão à visita oficial enfeitaram o caminho do príncipe japonês.

Uma equipe à serviço da Prefeitura de Curitiba também esteve cortando a grama na Av. das Torres, na altura do acesso à linha Verde e fazendo manutenção e limpeza no local. Coincidentemente, na manhã seguinte, a Ghost Bike em homenagem a ciclista Mari Kakawa, que morreu no local, não estava mais lá — foi retirada de um poste, a 3 m de altura, ainda que presa por correntes e cadeado.

A Prefeitura de Curitiba nega que a retirada tenha partido das secretarias municipais de Obras (Smop), Meio Ambiente (Semma) e Trânsito (Setran). Diz ainda que, se o equipamento foi indevidamente retirado por qualquer outro órgão, a bicicleta será recolocada no local.

Quando e se isso acontecer, a Família Imperial japonesa já estará a 18.584 km de distância…

 

 

 

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