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Jorge Pontual: “É errado pedalar na calçada. Mas mais errado ainda é o ciclista não ter lugar para pedalar na rua”.

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Jornalista Jorge Pontual com sua nova bicicleta em Nova York: “Quero pedalar por todo este país e pelo mundo”.

O corresponde internacional da Rede Globo em Nova York Jorge Pontual não esconde de ninguém sua nova paixão: as bicicletas. Sempre que pode, o jornalista compartilha, pelo Twitter, detalhes de suas pedaladas pela cidade e publica, todo orgulhoso, fotos do seu novo “brinquedinho”: uma bicicleta dobrável, modelo Crosstown, da marca Montague.

Morador de Nova York há 15 anos e meio, Pontual acompanhou, como repórter, a renúncia do presidente americano Richard Nixon, cobriu os atentados às Torres Gêmeas em 11 de Setembro de 2001 e esteve na Guerra do Iraque. Também já entrevistou o ex-secretário geral na ONU Kofi Annanm, o prêmio Nobel de economia Paul Krugman e o ex-secretário de Defesa dos EUA Donald Rumsfeld. Mas foi após entrevistar o roqueiro, artista e cicloativista David Byrne que Pontual redescobriu o prazer de uma boa pedalada.

Desde então, ele trocou os yellow cabs — como são conhecidos os taxis nova-iorquinos –, pela bicicleta nos seus deslocamentos diários de casa até o escritório internacional da Globo. “Pedalar é uma forma de meditação”, afirma. Recentemente, as magrelas também entraram na pauta dos programas Milênio e Sem Fronteiras, comandados por ele no canal Globonews.

Em entrevista ao Ir e Vir de Bike, Pontual conta detalhes dessa sua transformação pessoal, dá pistas de duas primeiras “pedaladas” no campo do cicloativismo e explica como a bicicleta ajudou Nova York a superar o trauma dos atentados de 11/9, transformando-se em bandeira política capaz de humanizar a maior cidade dos Estados Unidos. Confira:

Há quanto tempo começou a pedalar?

Quando me mudei para Nova York (NYC), costumava pedalar no Central Park porque morava ao lado, era o que chamam aqui de recreational biking (passeio). Mas me mudei e parei de pedalar, durante anos. Agora em junho, gravei um Milênio com o músico David Byrne, que falou sobre o livro dele, Bicycle Diaries [publicado no Brasil como Diários de Bicicleta], onde conta suas aventuras pedalando pelo mundo. Ele só se desloca de bicicleta por NYC e usa um modelo dobrável que leva em suas viagens. Gostei da idéia, aderi, comprei uma bike igual à dele, uma Montague Crosstown, que carrego numa bolsa, e desde então passei a pedalar pela cidade. Como Byrne, comprei uma mala especial para poder levar a bicicleta em viagens. Quero pedalar por todo este país e pelo mundo.

O que o fez optar pela bicicleta como meio de transporte em Nova York?

Eu tinha medo de pedalar no trânsito daqui que é bem perigoso. Mas logo descobri as ciclovias. Tem ciclovias no trajeto da minha casa ao escritório da Globo, e o mesmo na volta. Me senti seguro. O melhor foi constatar que chego ao trabalho em muito menos tempo (20 minutos) do que se fosse de táxi ou metrô. E para completar é um ótimo exercício que eu estava precisando fazer. Já perdi uns quilinhos e me sinto muito mais saudável.

O que mudou na sua vida depois dessa decisão?

Além da forma física e da economia (gastava muito dinheiro em táxi para “chegar ao trabalho mais depressa”, mas vou mais rápido de bike), pedalar é, como aprendi com o David Byrne, uma forma de meditação. A gente respira melhor, entra num relaxamento mental automático e se deixa tomar por uma espécie de devaneio. Quem pedala todo dia por muito tempo, como eu, sabe do que eu estou falando. E quem não sabe, é só aderir ao ciclismo e descobrir.

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Protesto do movimento Critical Mass toma as ruas na Time Square: militância colocou a bicicleta como prioridade no planejamento urbano da cidade.

Se morasse no Brasil, também usaria a bicicleta nos deslocamentos do dia a dia?

Estive por duas semanas no Rio de Janeiro, em julho, e usava a bicicleta todo dia para ir a compromissos, mas me senti muito menos seguro do que em Nova York, pela falta de ciclovias fora dos locais de recreação. Me deparei com o desrespeito de alguns motoristas cariocas, que buzinam para o ciclista sair da frente. Vi que a maioria dos ciclistas acaba pedalando nas calçadas, por falta de espaço nas ruas, o que é um absurdo. É errado pedalar na calçada. Mas mais errado ainda é o ciclista não ter lugar para pedalar na rua. Vou voltar ao Rio em outubro e pretendo continuar pedalando, mas fico apreensivo.

Isso tem algum motivo especial?

Uma coisa péssima que existe no Rio e não em Nova York são os ônibus de empresas particulares, verdadeiros bólidos sem controle que cortam as ruas na maior velocidade. É um perigo para os ciclistas, para os pedestres e também para os carros. Aqui só há ônibus da empresa municipal, que não saem da faixa, não correm, e não oferecem perigo.

Você se considera usuário de bicicleta ou cicloativista?

Por enquanto sou apenas usuário de bicicleta, mas acho muito atraente o cicloativismo que descobri aqui. Aos poucos eu pretendo me engajar nesse movimento. Já participei de uma bicicletada da ONG Time’s Up, que promove o Critical Mass [no Brasil, o movimento ganhou o nome de “Bicicletada”]. Fizemos um passeio pelos lugares onde Lou Reed tocou e toca, viveu e vive, e uma das bicicletas rebocava um carrinho com uma boombox, tocando Lou Reed a todo volume. Paramos o trânsito. Foi uma festa.

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Preparativos para passeio ciclístico partindo do Marco Zero, local dos atentados de 11/9. Bicicleta ajudou a superar o trauma e a humanizar a cidade.

Como o movimento cicloativista atua por aí?

Gravei para um Sem Fronteiras da Globo News sobre 11 de setembro, que irá ao ar em breve, uma reportagem sobre o cicloativismo. É algo que ganhou muita força em Nova York depois do trauma dos atentados, como parte do empenho da população daqui de humanizar a cidade, de reconquistar os espaços urbanos ocupados pela polícia e pelas megacorporações. O que houve nos últimos 10 anos foi um movimento de desobediência civil dos ciclistas para conquistar o direito de usar o espaço urbano, um movimento bem sucedido. Primeiro ocorreram as manifestações de centenas de ciclistas denominadas Critical Mass. Muitos foram presos, mas os ativistas não desanimaram e todo mês voltavam às ruas. Por fim, eles ganharam na Justiça o direito de realizar essas manifestações e a prefeitura teve que pagar aos cicloativistas US$ 1 milhão de indenização pelas prisões arbitrárias de ciclistas.

E quais foram os efeitos desses episódios na vida da cidade?

Isso culminou numa reviravolta política, em 2007, com o prefeito Mike Bloomberg colocando como chefe do departamento de transportes a cientista política Janette Sadik-Kahn, uma ambientalista comprometida com a redução da congestão urbana através do uso da bicicleta. Ela construiu 440 quilômetros de ciclovias na cidade, na maioria pistas protegidas com calçadas dos dois lados, fechou ao trânsito grandes trechos da Broadway, distribuiu gratuitamente 30 mil capacetes para segurança dos ciclistas e mudou o espaço urbano, transformando NYC, em tão pouco tempo, numa cidade bike-friendly [amiga das bicicletas]. É uma luta acirrada na qual ela conta com a participação dos cicloativistas, especialmente da ONG Transportation Alternatives.

Não houve pressão ou algum tipo de resistência de setores da sociedade?

Os “tablóides”, jornais sensacionalistas de massa, de extrema-direita, fazem campanha contra Sadik-Kahn e as ciclovias. Há dias, ela derrotou na Justiça um processo movido por um grupo do Brooklyn para fechar uma ciclovia no bairro, processo que teve apoio dos tablóides e das TVs da mesma orientação política. Em agosto, pelo segundo ano, algumas das principais artérias da cidade foram fechadas ao trânsito por três sábados, uma festa de milhares de ciclistas (e pedestres) usufruindo o verão, percorrendo Manhattan de Norte a Sul. NYC ainda está longe, muito longe, do que acontece nas cidades européias (e até em Bogotá), onde grande parte da população vai trabalhar de bicicleta. Mas, de 2010 para 2011, cresceu em 14% o número de ciclistas nas ruas.

Qual o papel do poder público como incentivador do uso das bicicletas aí em Nova York?

Como já disse, sem o prefeito Mike Bloomberg e seu projeto de descongestionar o trânsito da cidade, nada disso teria acontecido. O que preocupa é que Bloomberg só fica até 2013, e se for eleito um novo prefeito (ou prefeita) sem o mesmo compromisso com o descongestionamento, a rede de ciclovias pode estar ameaçada. Sadik-Kahn fez muito em tão pouco tempo, mas ainda há uma enormidade a fazer. Por exemplo: as ciclovias protegidas só existem em alguns trechos de algumas das grandes avenidas, e não há nenhuma atravessando Manhattan no sentido Leste-Oeste.

Quais as dificuldades em se pedalar na “Big Apple”?

Para pedalar por toda a cidade eu tenho que enfrentar muitas situações arriscadas, no meio do trânsito, em ruas sem ciclovia, como no Rio. E é claro que os motoristas e pedestres ainda estão longe de respeitar os ciclistas, é perigoso. Além disso, as ruas de Nova York, pasmem, são bem mais esburacadas que as do Rio. Isso porque no inverno são jogadas no asfalto toneladas de sal para derreter a neve, o que destrói o asfalto, e não há manutenção suficiente. Pedalar em NYC é um constante sacolejo, haja amortecedor — que a minha bike dobrável não tem.

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Além da rede de mais de 400 quilômetros de ciclovias, ruas de Nova York são fechadas aos carros para priorizar o trânsito das bicicletas.

Porque no Brasil ainda existe resistência do poder público para incentivar o uso das bicicletas nas grandes cidades?

Não acompanho a situação no Brasil mas gostaria de saber mais a respeito. Acho que o nível insustentável de congestionamento do trânsito nas nossas grandes cidades vai levar o poder público e, espero, a população, a adotar medidas que restrinjam o uso dos veículos motorizados e incentivem o uso da bicicleta. É inevitável. O que a gente vê, uma nova classe média no Brasil que aproveita seu recém-conquistado padrão de vida para adquirir um carro para cada membro da família, é insustentável. Vamos acabar tendo que aceitar que o excesso de veículos torna o trânsito inviável, e que a bicicleta é uma boa alternativa, se houver investimento em ciclovias e educação de motoristas e pedestres.

Acredita, então, que a bicicleta pode romper o preconceito e se popularizar como meio de transporte viável no país?

Em vez de ser “coisa de pobre” a bicicleta irá ganhar, como na Europa e aqui, o status de transporte “verde”, “cool” e saudável. Ano passado, quando ainda não tinha virado ciclista, fiz uma reportagem sobre a moda da bicicleta em NYC, acompanhando um executivo francês, dirigente de uma das maiores empresas de produtos de luxo do mundo, a LVMH, que ia todo dia para o trabalho aqui em Manhattan de bicicleta, chiquérrimo, de terno e gravata. Um luxo mesmo. Eu não chego a tanto, sou um simples ciclista, mas estou adorando minha nova vida no pedal.

Saiba mais
Assista ao programa Milênio em que Jorge Pontual entrevista o Músico e cicloativista David Byrne. Clique aqui.

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