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O veto de Fruet e os caminhos do cicloativismo curitibano

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Protestos de ciclistas em frente a casa do ex-prefeito Luciano Ducci era comum.

Protesto em frente a casa do ex-prefeito era comum em outros tempos.

– E nós não vamos fazer nada?!? — A frase, dita com surpresa por um ciclista diante da notícia do veto do prefeito de Curitiba à Lei da Bicicleta (N.º 14.594 de 2015), indica claramente que muita coisa mudou por aqui desde aquele 1º de janeiro de 2013, quando Gustavo Fruet (PDT) foi pedalando tomar posse no Palácio das Araucárias.

Diante do veto, que tornou a lei praticamente inócua, é quase impossível não constatar que, fosse ainda Luciano Ducci (PSB) o dono da caneta, e ele já teria perdido o sono, literalmente. Numa hora dessas, de uma manhã de sábado, a rua do seu prédio já estaria tomada por um protesto de ciclistas indignados com megafones e palavras de ordem: “Hei, Ducci, desce e vem pedalar!”.

Era um tempo em que a Massa Crítica fazia jus ao nome e sobrenome e o interesse comum pela bicicleta unia e mobilizava a todos. Mas desde que o comando da administração municipal mudou, as coisas foram ficando, digamos, mais mornas por aqui.

O que primeiramente era apenas um gesto de boa vontade dos ciclistas com a nova gestão, tornou-se uma espécie de complacência incondicional. Tudo para construir e garantir o chamado “canal de diálogo”—diálogo este que acabou se transformando em um fim em si mesmo.

As coisas não acontecem, mas vejam só: os ciclistas agora podem tomar chá da tarde e conversar amenidades com o prefeito! Vez por outra, ele até aceita pedalar para aparecer sorrindo de capacete torto na cabeça para fazer a foto da campanha.

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Material de campanha: promessa de 300 km de infraestrutura cicloviária.

Do diálogo nos gabinetes, veio a possibilidade de indicação de ciclistas para cargos comissionados na máquina pública – salários polpudos, na base dos R$ 8 mil mais R$ 2,5 mil de gratificações! Daí para o cicloativismo chapa-branca não foi preciso nem pedalar muito.

Os que não se deixaram cooptar, simplesmente viraram as costas para o movimento e foram pedalar para cuidar da própria vida.

Quando, em abril de 2014, um caminhão da prefeitura atropelou e matou uma jovem em plena ciclovia, a tragédia só não passou em branco porque uma bicicleta desta cor foi instalada no local do atropelamento. E ficou só nisso mesmo. Em outros tempos, uma ciclovia de indignação conectaria diretamente aquela esquina com o Palácio das Araucárias e a casa do prefeito.

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Protesto responsabilizou prefeitura pelas 80 mortes de ciclistas entre 2009 e 2012 Curitiba nas ruas de Curitiba.

Já o memorial, que serviria para homenagear Letícia e tantos outros que tombaram por pedalar nas ruas da cidade, virou promessa de candidato. Foi escamoteado e deixado de lado para não macular com o estigma da morte a pracinha encantada.

Agora, veio o veto do prefeito à Lei da Bicicleta: um tapa na cara dos ciclistas curitibanos– inclusive daqueles que sempre o apoiaram incondicionalmente. Foi preciso esperar dois anos para ver que Fruet não veio para mudar nada na área da ciclomobilidade – no mesmo período, Fernando Haddad está promovendo uma verdadeira revolução nas ruas de São Paulo.

Segundo a Procuradoria, há justificativas técnicas para o veto. Pode convencer meia-dúzia; ainda assim, outros 14.863 cidadãos que ajudaram a construir uma lei de iniciativa popular continuarão indignados e se sentindo traídos.

downloadPara o prefeito provar que é amigo da bicicleta de verdade, não bastará mais apenas sair para pedalar escoltado por assessores e puxa-sacos na campanha da reeleição. Antes de pedir voto para quem pedala, ele terá que mostrar coragem — atributo que ficou faltando até agora na área da ciclomobilidade.

O único gesto que se pode esperar da prefeitura após o veto é o envio de um Projeto de Lei de iniciativa do Executivo à Câmara Municipal, regulamentando a aplicação de 20% do valor arrecadado com as multas de trânsito do município para despesas relacionadas à sustentabilidade da mobilidade urbana. Era exatamente isso o que previa o artigo 3º da Lei da Bicicleta, que surgiu da vontade popular.

Para os ciclistas que ainda não sabem o que fazer, pressionar a Prefeitura neste sentido pode ser um bom caminho – e dar mais resultado que um diálogo pautado apenas por cargos comissionados, sorrisos e tapinhas nas costas.

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