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Pedalada atacameña: de bicicleta no deserto mais árido do mundo

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Deserto do Atacama: um convite para uma boa pedalada.

Nota do autor: Para mim, essa viagem foi uma experiência marcante demais para omitir alguns detalhes em um texto enxuto. Por outro lado, o objetivo não é fazer disso um livro. Comecei a escrever e me empolguei com as lembranças, ainda frescas na memória. Para não desperdiçá-las, optei então por dividir os assuntos em pequenos tópicos, não apenas sobre a pedalada, mas sobre toda essa aventura.

Introdução

O que me levou ao Atacama, no Norte do Chile, foi o trabalho. A pauta: cobrir o lançamento de uma nova linha de caminhões da Volvo, para os cadernos de Economia e de Automóveis da Gazeta do Povo. Entretanto, o que mais me empolgou quando fui escalado para essa viagem foi a possibilidade de arranjar uma brecha na programação e alugar uma bicicleta para pedalar pelo deserto mais seco do planeta.

Essa oportunidade surgiu logo no segundo dia, quando a programação previa uma tarde livre, provavelmente já prevendo que nenhum jornalista do mundo — éramos 30, no total, entre brasileiros, argentinos e chilenos – conseguiria ir a um lugar como aquele sem o interesse de explorá-lo.

A missão

Apesar da minha preocupação e ansiedade (onde vou conseguir uma bicicleta no meio do deserto?), arrumar uma magrela foi o menor dos problemas. O próprio hotel Kunza, onde ficamos hospedados, tinha uma frota de bikes de boa qualidade para alugar. Acabei escolhendo uma Trek 3 Series, com suspensão e pneu com cravos para trilhas pesadas.

O aluguel, para um período de 6 horas (eu teria apenas 3 horas livres), saiu por 3.200 pesos chilenos (pouco menos de R$ 12). No preço também estava incluído o empréstimo de um capacete, um cadeado, uma garrafinha de água e um mapa (item fundamental para quem não conhece a região).

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Casas e muros de adobe: cidade construída de esterco, barro e palha.

Primeiras impressões

O hotel ficava a cerca de 3 quilômetros do, digamos, “centro” de San Pedro de Atacama, um povoado de menos de 5 mil habitantes, fundado em 1450 no meio do deserto. A cidade (ou melhor, o pueblo) vive basicamente do turismo e da prestação de serviços agregados– para lá convergem mochileiros e aventureiros do mundo todo – e em menor escala da exploração de jazidas de lítio, enxofre e cobre.

A sensação de dar as primeiras pedaladas naquela terra do deserto me deixou extasiado. O caminho até o povoado era cheio de curvas fechadas e algumas ondulações – um verdadeiro convite para pedalar forte, saltar algumas lombadas e dar várias derrapadas.

Logo que cheguei em uma rua pavimentada, dei de cara com um pequeno rebanho de cabras em um pequeno sitio, a poucos metros da entrada do povoado. Parei para observá-las: cabras magras, com as tetas caídas, acompanhadas de cabritinhos esquálidos buscando freneticamente algum brotinho em meio a toda aquela aridez. Infelizes cabras do Atacama!

Casas de adobe

Chegando ao pueblo, mais uma surpresa. San Pedro de Atacama tem a cor do deserto. A maioria dos prédios e muros são feitos de adobe, uma espécie de tijolo cru feito com barro, palha e esterco (isso mesmo que você está pensando: casas feitas de merda!).

Mas, segundo um morador local me explicou, o adubo reage com a palha deixando só o barro, formando um tijolo “aerado” e leve.
O adobe é usado tanto na construção das casas dos moradores pobres quanto nos hotéis, pousadas e luxuosos resorts (nem que seja no muro, só para dar um estilo!). Não deixa de ser poético: pobres e ricos em construções de esterco e teto de palha!

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Rua de San Pedro de Atacama.

O povoado e sua história

Dei uma rápida volta pelas ruas da cidade para senti-la. San Pedro é pacata. Às vezes você olha em uma direção e não vê movimento algum, apenas alguns cachorros preguiçosos, deitados onde quer que seja, desde que se possa escapar do calor infernal.

Por alguns segundos, dá a sensação que vai aparecer do nada uma daquelas bolas de capim rolando, empurrada pelo vendo. Mas daí, ao invés disso, surge algum turista, com mochila nas costas, câmera fotográfica pendurada no pescoço e um olhar curioso com tudo aquilo.

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Cena bucólica: cachorro dormindo no meio da praça.

O povoado é formado ao redor de uma praça que, como era de se esperar, fica no entorno de uma igreja. A Iglesía de San Pedro, que deu origem ao nome do local, foi fundada por volta de 1640.

Na versão oficial, a primeira missa foi celebrada ali em espanhol e kunza, idioma do povo nativo Likan-antai, e teria selado a paz entre colonizadores e colonizados. Para os descendentes dos indígenas do deserto, entretanto, a liturgia significou o fim de sua cultura, de suas crenças e até mesmo de seu idioma, hoje totalmente extinto.

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Igreja de San Pedro, construída em 1640: 1ª missa foi celebrada em espanhol e kunza.

Vida moderna

No mais, turistas para lá e para cá, lojinhas de artesanato, albergues além da Calle Caracoles, rua destinada exclusivamente ao tráfego de pedestres onde não se pode nem mesmo andar sobre a bicicleta. Desci e empurrei a bike.

Logo de cara, deu para perceber que os chilenos respeitam ciclistas, pedestres e as leis básicas de trânsito. Alguns colegas brasileiros, aliás, ficaram estupefatos com o fato dos motoristas dos carros pararem (vejam só vocês!) antes de um cruzamento com uma placa escrita “Pare”.

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Caracoles: rua exclusiva para pedestres. De bike ali, só se for empurrando.

Pra que lado fica?

Resolvi pegar uma rua que terminava na rodovia de saída da cidade, sentido noroeste, em direção a Calama, tendo em mente dar uma pedalada no deserto propriamente dito.

A preocupação maior, porém, era em relação à questão da localização geográfica. O deserto engana e é traiçoeiro porque não tem pontos de referências – em meio a pedras e terra seca, tudo parece igual e, sem perceber, é fácil perder a direção. Além disso, tinha pouco mais de 1h30 para pedalar e voltar ao hotel.

Pedalando cerca de 800 metros pelo acostamento da rodovia, encontrei uma ponte sobre o que, um dia, já foi o leito de um rio. Resolvi descer e usar esse pequeno canyon como uma estrada natural – afinal, seguindo o leito não haveria como me perder. E foi isso que fiz.

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Sobre a ponte de San Pedro: antigo rio vira estrada no deserto.

Pedalada no deserto I

O deserto mais parece um cenário marciano, com sua terra vermelha e árida. O ar também é seco e poeirento. O nariz sangra com facilidade. A garganta seca e enquanto você respira a sensação é de estar enchendo os pulmões com aquela areia do deserto.

O mais intrigante é que o corpo não sua. A umidade do ar é tão baixa e o calor tão forte que a evaporação é instantânea. E aí que mora o perigo: você não sente e, sem perceber, pode desidratar sob um calor de 40°C. A vontade é sorver os 500 ml da garrafinha de água em um só gole. Mas a recomendação é tomar pequenos goles e com frequência.

Devo ter pedalado uns três quilômetros rio abaixo (ou melhor, deserto adentro). O objetivo era chegar a um ponto onde só pudesse ver deserto: sem casas, estradas ou qualquer outra coisa que lembrasse a civilização.

Quando cheguei ao ponto desejado desci da bicicleta, exausto, sentindo que iria derreter. Contemplei a paisagem. Tirei algumas fotos (com o celular, já que viajei sem uma câmera! Burro!!!). Contemplei mais um pouco o silêncio do deserto e voltei para chegar a tempo ao hotel, tomar um banho e seguir com a agenda oficial do evento.

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Cenário desértico: ao fundo o vulcão Licancabur.

Jantar, surpresa e frio

Nesta mesma noite ocorreu o lançamento do caminhão (apenas lembrando, o motivo que me levou até lá). Foi um jantar à luz de velas, em tendas dispostas em torno de três grandes fogueiras, montadas no meio do deserto. Os sentidos ficaram aguçados.

Enquanto jantávamos, ao som de uma banda de música folclórica chilena (com equipamentos abastecidos por um gerador a diesel), o caminhão apareceu do vazio do deserto surpreendendo a todos.

Outra coisa que me pegou de surpresa foi o frio da noite no deserto. A temperatura despencou, chegando próxima a 0°C. Apesar de bem agasalhado, com touca de lã e das fogueiras, cheguei a tremer de frio.

Hora do trabalho

Na manhã seguinte, logo cedo, ocorreu a coletiva de imprensa. Diversos executivos da companhia – do presidente a diretores e gerentes — se reuniram para passar informações sobre o novo caminhão.

Minha missão era mandar até o fim da tarde uma matéria com enfoque econômico para o jornal, em Curitiba. Mas os jornalistas que estavam ali – exceto eu e uma colega de um jornal especializado em economia – estavam mais interessados na caixa de câmbio, na potência do motor, no torque e em outros termos que não me lembro mais.

Eu precisando de números, dados, planos de investimentos na fábrica (que fica em Curitiba, portando é de interesse dos leitores do jornal) e nada. Um gancho, pelo amor de Deus!

Mas já era sabido de antemão: empresas desse porte não costumam dar muitos números em eventos como esse. Ossos do ofício. Aperta daqui, puxa dali, chama o presidente em um canto depois da coletiva e deu para espremer alguma coisa.

Mandei um e-mail para minha editora contando o que renderia e combinei de mandar a matéria. Antes de sentar e escrever, entretanto, haveria o test drive no meio do deserto.

Interlúdio

Como estávamos em muitos jornalistas e só havia um caminhão – levado do Brasil até o Chile só para aquele lançamento –, os organizadores do evento separaram os jornalistas em quatro grupos.

Enquanto um grupo se entretinha com o caminhão, outros foram levados para conhecer os principais pontos turísticos, situados dentro de uma reserva nacional.

Dentre eles, a Cordillera de la Sal, o Valle de La Luna, uma mina de sal desativada com ruínas das casas dos mineradores e a Duna Mayor. No dia anterior já havíamos conhecido o salar e a Laguna Azul. Cenários e paisagens incríveis e surreais.

Raízes e fé

A nossa guia, Carolina, uma jovem de 17 anos, tinha fortes traços indígenas. Quando contava sobre as lendas e tradições dos locais, usava sempre o “nosotros”, fazendo questão de enfatizar a sua origem e a raiz de seus ancestrais que habitaram aquela terra.

Conversamos bastante durante os passeios e ela me contou um pouco sobre o seu povo. “Os colonizadores espanhóis se referiam a nós como atacameños. Mas originalmente somos Likan-antai, que no idioma kunza significa ‘os habitantes do território’”, me explicou.

Carolina contou também, com certa tristeza, que pouco restou da cultura de seus antepassados. “Só sobraram os nomes dos vulcões, vales e montanhas em kunza. As culturas e tradições e o próprio idioma desapareceram”.

Segundo ela, o que resta da cultura sobreviveu através de alguns anciões, que lembram de algumas poucas palavras que conheceram pela tradição oral, já os Likan-antai não tinham escrita.

“Nossos deuses, o vulcão Licancabur e a Pachamama (Mãe Terra) foram substituídos por São Pedro, Jesus Cristo e Virgem Maria”, explicou Carolina.

Test drive

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Durante o test drive: trocar as marchas de um caminhão é como trocas as de uma bicicleta.

Depois do passeio, chegou minha vez de dirigir o caminhão. Apesar de ter aprendido a dirigir um carro por volta dos 12 anos, até hoje, mesmo com 28 anos nas costas, nunca tirei carteira de habilitação (a palavra bicicleta explica e justifica tudo isso).

Temendo ser vítima de bullyng, preferi omitir a informação dos colegas, todos eles especializados em automóveis e tarados por carburadores e rebimbocas da parafuseta.

O engenheiro da Volvo Ricardo Tomasi, que me acompanhou na cabine, a essa altura já sabia da minha paixão pelas magrelas (afinal, fui o único do grupo a pegar uma bike para se aventurar pelo deserto).

Ao explicar sobre o sistema de troca de marchas – com duas caixas e 9 velocidades – ele fez a analogia. “É como em uma bicicleta, que tem o a coroa e o pinhão. Aqui você aperta para trocar a ‘coroa’ para a segunda caixa”.

Dirigi um percurso de um quilômetro em uma estrada de terra batida no deserto. Mas na hora de fazer a meia volta, freei muito forte, dando um solavanco forte que até me assustou. “O freio é pneumático, por isso responde de imediato”, me explicou Ricardo.

Em seguida, na hora de manobrar, deixei o caminhão morrer. “Faltou aceleração, mas acontece para quem não está acostumado”. Depois, conversando com outros colegas, soube que fui mais barbeiro que duas das repórteres que também dirigiram um caminhão pela primeira vez. Pois é, caminhão é legal. Mas ainda curto mais as bicicletas!

Questão de prioridades

Terminada a sessão turismo/caminhão, a prioridade era escrever a matéria do dia e mandar o material para a Redação o quanto antes. Emprestei o laptop de uma das assessoras de imprensa, sentei em uma mesa no saguão do hotel e comecei a escrever.

À essa altura, já estava azul de fome, mas aquela seria minha última tarde no Chile. Tarde livre. Então, se fosse almoçar, atrasaria o envio da matéria e poderia não sobrar tempo para mais uma pedalada no Atacama.

Decidi não almoçar por uma questão de prioridades: escrever, mandar a matéria, alugar uma bike e ir para o pueblo comer alguma coisa.

Sem nada mão e uma câmera na cabeça

Não me arrependo da decisão de trocar o almoço por meia hora a mais da pedalada. Só me arrependo de ter saído com tanta pressa para pegar a bike que acabei esquecendo o celular no quarto do hotel.

Só percebi isso quando pensei em tirar a primeira foto, enquanto enchia a barriga com um sanduíche . Calculando o tempo e a quilometragem que perderia na função de voltar ao hotel, pegar o celular-câmera e retornar ao povoado, abri mão das fotos e agucei os sentidos para gravar na cabeça e na memória cada detalhe daquela pedalada.

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Caminho para a Duna Mayor.

Pedalada no deserto II

Dessa vez peguei uma estrada rumo ao norte, que liga San Pedro a Pukará de Quitor, distante cerca de 5 quilômetros, onde existe uma fortaleza construída no século XII pelos incas. Quando já tinha pedalado mais ou menos uns dois quilômetros olhei para a minha direita para observar o vulcão Licancabur no horizonte, que nessa época do ano ainda preserva um pouco de neve no seu cume.

Resolvi então mudar a rota e pedalar pelo deserto rumo ao leste, em direção ao vulcão. Não com o objetivo de alcançá-lo (entre nós, havia quase 30 quilômetro de distância), mas para poder contemplá-lo durante a pedalada.

Pedalei alguns minutos de subidas e descidas, sem estrada, deserto adentro. É um desafio emocionante controlar a bike em um caminho como aquele, cheio de pedras e bancos de , areia. A traseira da bike derrapa, as rodas patinam, o guidão quase escapa das mãos. Tudo isso sob as condições do deserto já detalhadas anteriormente.

Em determinado ponto avistei, a uma distância de uns três quilômetros, uma grande área branca em meio ao deserto. Deu para avistar que de lá partia uma estrada de chão batido rumo ao sul. Resolvi ir até lá para conferir.

A mina abandonada

Conforme ia me aproximando, fui percebendo que aquela “miragem” era formada por grandes dunas brancas. Imaginei que fosse sal, mas quando cheguei perto dos primeiros fragmentos espalhados pelo chão, vi que se tratava de uma espécie de brita branca com tons amarelados.

Parei para pegar uma e o cheiro do diabo denunciou: enxofre. Aquilo era uma mina no meio do deserto. Uma mina abandonada, com enormes montanhas de enxofre.

Dei uma volta para explorar o local e vi uma espécie de rampa, usada para carregar caminhões de carga, construída sobre uma estrutura de blocos de pedra recortada.

Pedalei até o topo. No fim da rampa, uma pequena mureta. Abaixo, um “abismo” de uns quatro metros de altura. À frente, o Licancabur. Encostei a bicicleta e cheguei a sentar, com as pernas para fora, para observar o todo poderoso vulcão.

Olhando novamente para baixo, próximo a base da rampa, vi um grande círculo, com uma cruz ao centro, feitos com pedras alinhadas. Sem dúvidas, uma homenagem póstuma a alguém que caiu ali de cima, exatamente de onde eu estava, e morreu. Recuei e resolvi descer, por precaução.

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Montanhas de enxofre no meio do deserto. Ao fundo, o todo Poderoso Licancabur.

Venerando o vulcão

Decidi então explorar aquelas dunas de enxofre. Encostei a bicicleta e prendi com a trava, por precaução. (Quem iria roubar uma bicicleta no meio do deserto? Mas vai que…). Subi escalando a mais alta das montanhas de enxofre pelo caminho menos íngreme.

Lá no alto, fui até o extremo e me sentei novamente de frente para o vulcão (agora, aparentemente, sem correr risco algum).
Licancabur, na língua kunza, significa “montanha do povo”.

O vulcão é considerado semi-ativo, embora não existam registros históricos de sua última erupção. A região de San Pedro de Atacama abriga 98 vulcões – sendo três deles ainda ativos.

O cenário lá do alto: o céu de um azul intenso, sem uma nuvem sequer. O deserto, com sua beleza árida. Um silêncio envolvente, onde só é possível ouvir o vento e seu próprio fluxo de pensamentos (a essa altura bombando).

Na solidão do deserto me reconectei. Neste instante, entendi porque os Likan-antai veneravam o vulcão como Deus. Me curvei em sinal de gratidão ao Licancabur por me proporcionar aquele momento.

Desci e, antes de pegar a bicicleta, tirei o tênis para sentir o contato dos meus pés com a Terra. Pedi proteção à Pachamama e voltei a pedalar pelo deserto, com o coração e a mente cheios de graça.

Abóboda celeste

Não é exagero afirmar que o Atacama tem o céu mais lindo da Terra. O deserto é a janela deste planetinha azul para o universo. A ausência de umidade e de cobertura de nuvens durante praticamente o ano todo proporciona um espetáculo ímpar todas as noites.

Não à toa, o local foi escolhido para abrigar o ambicioso projeto científico-astronômico ALMA (Atacama Large Millimeter Array). Formado por um consórcio internacional (com a participação do Brasil), o projeto está investindo US$ 2 bilhões na construção do maior rádio-telescópio do planeta à leste de San Pedro.

Pela estrada deu para avistar o complexo, protegido como área militar de segurança máxima. O telescópio deve entrar em operação em 2012.

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Céu do Atacama: a janela do planeta para o Universo.

Eles existem?

Na última noite, após o jantar de encerramento, a programação do evento previa uma visita ao observatório astronômico de um hotel, que investiu US$ 300 mil para construí-lo.

Após uma breve explicação didático-astronômica, pudemos observar a estrela vermelha de Antares, considerada o coração da constelação de Escorpião e a Lua, que naquela noite estava na fase crescente e sorria tal como o Gato de Cheshire, da história de Alice no País das Maravilhas.

Dentro do telescópio, perguntei ao operador se ele já havia visto algo “diferente” no céu. Ele disse que sim, mas não no Atacama, e sim durante uma viagem ao Brasil. Questionei o que era. “Luzes inexplicáveis até mesmo para quem trabalha com isso todas as noites”, resumiu.

Perguntei ainda se ele acredita em vida inteligente fora da Terra. Ele não respondeu nada, apenas apontou para que eu olhasse na lente do telescópio, que apontava para a Grande Nuvem de Magalhães, no coração da Via Láctea. De fato, não foi preciso dizer mais nada.

Último pedido

De volta ao hotel, para a última noite no Atacama, minha última vontade era deitar e dormir. Conversando com alguns colegas, cogitamos ir para algum bar em San Pedro para fechar a viagem. Mas fomos informados de que tudo por lá fecha as 23 horas. Teríamos, na melhor das hipóteses, meia hora de diversão. Não valeria a pena.

Ficamos então no lobby do hotel, conversando e tomando uma cerveja. O papo estava agradável, mas, cansados, um a um, todos foram todos se retirando. Voltei para o quarto. Ainda sem sono, fui para uma espécie de varanda no fundo do quarto, que dava para um espaço aberto, cercado pelos muros do hotel.

Peguei duas almofadas de um dos sofás da varanda, caminhei cerca de 30 metros e coloquei-as no chão. Protegido do frio por um poncho de lã de vicunha, comprado no dia anterior e com um gorro de lã com aquelas orelhinhas do Chaves, deitei ao relento para observar o céu.

Em poucos minutos vi duas estrelas cadentes. Para a primeira delas, fiz o pedido para um dia voltar ao Atacama para pedalar e compartilhar tudo aquilo com Andreza, minha mulher. Para a segunda estrela cadente, apenas sorri e agradeci.

O repórter viajou a convite da Volvo do Brasil. (E pedalou por conta própria).

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